Histórias da Pandemia - Septicemia Perispiritual



O grande corredor estava silencioso, as paredes das enfermarias funcionavam como bloqueadoras do ruído interior, isso devido à ligação mental dos Espíritos Benfeitores, responsáveis pelo local, que impediam com seu tônus vibratório fossem as áreas comuns invadidas pelos gemidos e gritos lancinantes dos enfermos ali recolhidos. Isso não se dava em razão do conforto das equipes de atendimento, mas com a finalidade de contenção para que os miasmas exalados fossem recolhidos e transformados nas equipagens da Colônia, a fim de não serem captados por outras mentes sintonizadas com os enfermos e utilizados em processos obsessivos. (captados e utilizados) Funcionavam as barreiras tais quais as que conhecemos na Terra, em determinados cárceres, quanto às comunicações telefônicas e eletrônicas.

Carlos e Honório moviam-se suavemente na direção da Enfermaria dos Septicêmicos.


- Qual a situação do nosso jovem médico, Honório?


- A situação é gravíssima, Irmão Carlos. A impressão que temos é a de estarmos observando um morto-vivo, em desespero pelo fim que sabe não chegará, mas que devido ao perispírito com múltiplas lesões está mesmo irreconhecível. É como se os tecidos sutis se fundissem numa massa disforme, onde não se identifica mais os sistemas que naturalmente se estruturam durante a cadaverização.


Carlos aproximou-se do receptáculo em forma de incubadora e estendeu as mãos sobre ele e delas começou a jorrar uma luz de cor verde claro, qual se fosse uma torrente de água da mais límpida fonte. Lá dentro do tubo, uma visão dolorosa. Do meio daquele aglomerado de tecidos dois grandes olhos sobressaíam como se fosse um molusco gigante, mas tinham uma profunda expressão de dor, um mudo pedido de socorro que tocou profundamente a sensibilidade dos dois médicos. Honório, menos afeito aquelas lutas redentoras e sofridas, enxugou as lágrimas com o dorso da mão.


Ele fora médico e atendera muitos pacientes com enfermidades graves, imagens que afetavam qualquer ser humano por mais preparado fosse, mas o que presenciava ali era algo que nunca imaginara. Quantas vezes examinara corpos estraçalhados em acidentes, explosões, suicídios de pessoas que se jogavam em precipícios, mas nunca presenciara algo tão doloroso como aquele quadro que eles chamavam de septicemia perispirítica, por uma inexistência de termo mais adequado para a compreensão dos homens.


- Honório, meu irmão! Não esqueças de que todos esses sofrimentos são transitórios. Essa deformidade é passageira. Olhe para ele e identifique o anjo aprisionado nesta cela de erros e oportunidades. Faça isto e o seu coração reorganizará as forças para o trabalho incessante que nos aguarda.


- Este é um caso em que a infestação do Coronavirus foi potencializada violentamente pelas atitudes do nosso facultativo em seus misteres desatinados na Terra. E tão amplo espectro de contaminação fez com que a histogênese espiritual ficasse excessivamente dificultada. As células sofreram tão grande ataque viral, que a desvinculação dos elementos sutis a partir do citoplasma carece de força dinâmica, retendo-o no interregno em que o corpo físico luta para liberar-se, mas não tem forças para plasmar os sistemas do corpo espiritual necessários para a fisiologia pós-desencarnação. A sua mente secreta a surda revolta pelo aniquilamento que veio quando não o desejava mais, porém a percepção dos danos causados ao corpo leva-o a ansiar pelo fim, que não logrou atingir.


Honório abriu as mãos espalmadas para cima, afastando-as e assim materializava um pequeno monitor, onde estavam as anotações sobre o septicêmico.


A tela mostrava a foto de um jovem muito belo, de 37 anos conforme anotava o prontuário. Vamos chamá-lo de Apolo. Médico, especialidade - Pneumologia. Desencarnação: 2020. Diagnóstico: Falência múltipla dos órgãos – Complicações advindas da Covid-19. Período de internação: sete dias.


Carlos direcionou a sua onda mental para um ícone triangular no canto superior da tela e acionou a área restrita para estudo com o médico aprendiz aos seus cuidados.


- Veja isto: Apolo é uma inteligência privilegiada. Adentrou a Universidade muito jovem, enfrentado o vestibular para Medicina, a contragosto, por imposição velada dos pais, ambos médicos, donos de uma clínica conceituada, que o persuadiram a uma carreira que diziam brilhante e coroaria todo o esforço que eles fizeram durante a vida. A vocação do moço era para a Arte. Tinha uma facilidade extrema para a execução de quaisquer instrumentos musicais. Fazia aulas às escondidas dos pais que, quando o surpreenderam nessas atividades, foram enfáticos em desaconselhá-las, como diziam, mas em verdade empreenderam um assédio moral deprimente, lançando mão de subterfúgios emocionais para que o filho, dado ao apreço pelos genitores, acolhesse a “sugestão”. Apolo sempre teve todas as comodidades que uma vida de classe média alta faculta aos seus integrantes e isso amolentou o ânimo de um Espírito que necessitava lutar pelo cumprimento do seu plano reencarnatório. Com as facilidades intelectivas que trazia consigo passou sem dificuldade pela academia, especializou-se, mas a frustração, durante o período acadêmico e profissional, foi tratada com o consumo habitual de drogas, o sexo desregrado e uma personalidade cínica e dissimulada, que aparentava um homem realizado, feliz diante dos outros e profundamente atormentado e sem princípios na intimidade.


Residente em um condomínio luxuoso era conhecido pelas orgias que patrocinava e que não interrompera nem durante o período de distanciamento social, quando fazia adentrar, com polpudas gorjetas aos vigias e demais empregados do prédio, tão irresponsáveis e criminosos quanto ele, homens e mulheres pagos regiamente para os bacanais. Ele queria contaminar-se, conscientemente, desejava acabar com a própria vida na qual não via sentido. Teve alguns confrontos com alguns vizinhos, mas era apoiado por outros que se somavam a ele nas farras lamentáveis. Foi abordado algumas vezes pela polícia, contudo a condição social e a influência da família sempre contornavam a situação, contando com a corrupção alastrada nos meios que deveriam zelar pela saúde pública e pelo cumprimento das leis.


Carlos e Honório vezes tantas o retiravam durante o sono físico para entendimentos e demonstrações da profundidade do fosso e da senda dolorosa que estava plasmando. O ambiente espiritual da cobertura onde o médico residia assemelhava-se, espiritualmente, a um subterrâneo com emissão constante de nuvens densas que sufocavam e emanavam um cheiro asqueroso, embora fisicamente higienizado diariamente, a visão espiritual era dantesca. Muitos Espíritos viciados em atitudes devassas se demoravam jogados pelas peças amplas, onde as paredes e o chão apresentavam uma consistência pegajosa, em tons de chumbo esverdeado, não obstante a decoração material primorosa. As entidades tinham uma aparência de decomposição, com muitas larvas a saírem das feridas abertas.


Apolo consumia cocaína diariamente e sob o império da droga visualizava esses quadros dantescos, sem condições de reagir. Em uma destas crises, no auge do desespero, foi socorrido pela dupla de benfeitores que lhe ofertaram um refrigério para subtraí-lo ao tormento.


Com ao auxílio da irmã Antonia – Siá Tonha – influenciaram um dos Diretores de um grande Hospital Público que estava a necessitar de um pneumologista na equipe - O médico era amigo da família de Apolo e diante da grande premência de profissionais, para dar conta dos enfermos que se avolumavam para atendimento, fez o convite.


O primeiro impulso do médico relapso foi de recusar a proposta, porém Antonia estava a postos, no momento do convite foi emitindo fluídos que acentuavam no jovem facultativo as lembranças das conversas mantidas entre ele e Carlos nas noites precedentes, o que o levou, mesmo sem muita convicção, a aceitar o trabalho. O seu pensamento enfermiço era de que, ali na linha de frente, o contágio viria mais rápido e ele faria tudo para contrair o vírus.


No entanto Deus tem seus planos insondáveis para a própria criatura sem violar a sua liberdade. Dali em diante, o cansaço do trabalho e o convívio com tantas dores foi de alguma forma, acordando na alma de Apolo um pouco de compaixão. Muitas vezes via-se emotivo diante de quadros tocantes que presenciava. Não quis ser médico, mas estava ali e estava conseguindo aliviar tantas dores, via a morte ceifar tantas vidas em poucas horas e dias. E o mais importante, naqueles dias começara a lutar para não utilizar a cocaína, no que Honório auxiliava, por orientação de Carlos, com a emissão de passes que adormeciam o adicto antes que ele pudesse fazer uso da droga. Passou a tomar mais cuidado e sem que percebesse a ideia da contaminação foi sendo vencida pelo desejo de viver e ajudar as pessoas.


Durante aproximadamente noventa dias a rotina do complexo hospitalar absorveu Apolo que, sem saber, estava sendo preparado para a desencarnação da forma menos gravosa possível, pois que a Misericórdia Divina sempre provê o melhor.


Quando não contava mais com a possibilidade de uma contaminação deliberada a doença eclodiu. Ele era um dos tantos assintomáticos e pela sua insensatez, nas orgias promovidas, contaminou muitas pessoas. Quando se infectou pela segunda vez, a doença veio devastadora, potencializada pelos vampiros que nutrira por longo tempo no compartilhamento do vício e pelos adversários espirituais que granjeara nas loucuras cometidas.


Carlos e Honório o assistiram nas horas derradeiras. Foram sete dias de um sofrimento atroz, onde todos os órgãos foram sendo levados à falência. Nem mesmo o processo de intubação o privou da agonia. Não fosse o último trimestre de trabalho devotado à Medicina e as equipes socorristas não o teriam livrado da vampirização.


Quando encerrou a apreciação do histórico do infeliz rapaz, Carlos deitou um olhar amoroso por toda a extensão da enfermaria onde se viam quadros semelhantes – os septicêmicos – Espíritos que a impiedade dos pensamentos e ações acentuou as complicações atinentes ao processo de desencarnação.


Uma melodia suave e belíssima começou a invadir o ambiente e a neblina esbranquiçada, com mesclas azuladas descia sobre os enfermos, atravessando as cápsulas fechadas e transparentes.


Carlos e Honório levaram as mãos espalmadas e cruzadas ao peito, reclinando a cabeça levemente, emitindo também a seu turno vibrações que se somaram ao tratamento ministrado por equipes espirituais preparadas para essas intervenções complexas no perispírito daquelas almas.


Eram instantes de intensidade vibratória, que se repetiam várias vezes, auxiliando a reconstrução da capacidade de reorganização das moléculas sutis do corpo espiritual.


Os corpos disformes foram sendo envolvidos em substâncias que se assemelhavam aos curativos para exsudação, recobrindo as feridas purulentas a fim de que, aos poucos, as memórias moleculares passassem a obedecer ao comando da mente e assim refazer as formas essenciais à continuidade da histólise e histogênese espiritual.


Carlos e Honório recolheram-se para as suas meditações, cada um com a avaliação própria ao cabedal de experiências e condição evolutiva que detinham, preparando-se para as fainas abençoadas que nunca cessam para os servidores leais a Jesus.


Pelo Espírito Oscar Pithan.

Médium: Maria Elisabeth Barbieri

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