Histórias da Pandemia – Reconcilia-te com teu adversário - Parte I



A manhã de outubro estava abafada, anunciando mais um dia de sol escaldante. O cheiro forte que subia dos esgotos e das montanhas de lixo que se formavam atrás dos barracos na encosta do morro formavam uma atmosfera desagradável e repelente para os que não estivessem afeitos àquela realidade.

- Doralina! Doralina... e a voz sumiu em meio ao acesso de tosse.

A mulher, ouvindo o seu nome, apontou o rosto redondo e ainda meio sonolento no vão da porta da casinha feita com sobras de madeira e tudo o mais que pudesse servir de abrigo. Desceu os degraus improvisados do barraco, quando a outra estendeu o braço e pediu:

- Não, não, por favor, não se aproxime, eu estou com Covid!

- Carmem! E agora? Tu tens que ir para um Hospital.

- Já fui no Postão, me mandaram para casa. Disseram que voltasse só se piorar, mas eu já nem consigo respirar direito. Bem, eu me ajeito, Doralina. Só vim pedir para que olhes as crianças. Estão sozinhas desde ontem quando saí e não posso voltar. Não quero contaminar, principalmente o Vitor que trabalha fora para me ajudar com os irmãos.

E voltou a tossir quase se afogando. Carmem respirava com dificuldade, apoiava-se no cercado que separava a casa da ruela, denotando que as suas forças se esvaíam.

- Doralina, com a força que as criaturas habituadas a conviver com a adversidade, a miséria e as tragédias cotidianas possuem, passou a mão em um pano pendurado num varal de corda e cobriu a boca e o nariz e correu para a vizinha. Vou por uma cadeira aqui na sombra e fazer um café “pra tu.” Deves estar sem comer, mulher.

- “Matias, Matias” acode aqui!

Matias era um dos líderes da Associação da Vila Constelação e chegou correndo ao ouvir os gritos da esposa, Doralina, pois andava nas imediações já cuidando de outras demandas da comunidade.

- O que houve Dora?

- Corre lá na Carmem, Matias, me vê como estão as crianças, se podem ficar com alguém, pois a mãe delas está aqui, está com Covid - e se aproximando falou em voz baixa - Ela está bem ruim.

Os vizinhos de Doralina foram espiando e de imediato formou-se uma pequena multidão na frente da casa, solidarizando-se com a situação de Carmem. Essas almas que vivem em penúria, muitas delas desenvolvem um senso de solidariedade e comunidade impressionante. São capazes de multiplicar o quase nada que possuem e prover, ainda que com muito sacrifício, até o limite das forças, a necessidade de cada um.

- Pessoal, escutem: essa doença é muito contagiosa, por favor ponham as suas máscaras e se mobilizem para ir até a casa da Carmem. O Matias já está lá. Ela tem cinco crianças em casa e estão sozinhas. Vejam como cada um consegue ajudar. O melhor seria que tirássemos as crianças de lá para que ela possa voltar para casa, onde ficará isolada. Aqui vocês não têm o que fazer. Deixem comigo.

A pequena caravana, de pronto, subiu o morro na direção do barraco de Carmem para ajudar Matias.

O Irmão Oscar e os atendentes da equipe acompanhavam o suplício da doente desde a sua chegada na Unidade de Pronto Atendimento, que como todas as demais, estava com superlotação. Fora um dia e a noite de intenso trabalho, onde os seareiros espirituais se desdobravam, auxiliando os enfermos a suportarem o desconforto, as dores e demais reflexos que a doença impõe, assim como amparavam e consolavam, com a aplicação de bioenergia, os familiares na longa e sofrida vigília e os trabalhadores da saúde na extenuante labuta.

Gelsi, uma das atendentes da equipe espiritual velou por Carmem com desvelado carinho por orientação do venerando Dr. Oscar. Carmem começou a sentir os sintomas gripais na manhã de domingo. O filho que trabalhava nas entregas do Mercado da Vila trouxe algumas máscaras distribuídas no local de trabalho, e ela logo passou a usá-las e quando começaram as dores no corpo tratou de buscar o atendimento. Era uma pessoa simples, mas de grande vigor moral. Acompanhava sempre as informações trazidas por Matias e outros líderes comunitários, assim como prestava muita atenção nas informações veiculadas nos programas da televisão de sinal muito instável, captado com uma antena improvisada no barraco.

Quando desceu rumo ao “Postão” ia pelo caminho fazendo a sua prece, pedindo a Deus que a ajudasse. Seus filhos precisavam dela, a pequena, recém tinha completado um aninho, ainda estava em fase de amamentação. O marido havia morrido antes dela nascer. Tivera um câncer galopante que o matou em menos de três meses depois do diagnóstico. Não tivera tempo nem de tentar uma cirurgia.

A miséria e a fome eram dribladas, dia após dia, com as faxinas que fazia, com o trabalho do Vitor, o filho mais velho de 18 anos. O marido era vendedor ambulante e não possuía nenhum amparo previdenciário, e sua morte deixou a família desprovida de qualquer proteção - fato muito comum naquelas comunidades.

Sentada em uma cadeira na UPA, ela esperou quase 16 horas para ser atendida e dispensada após um teste rápido. Afinal ela andava, falava, estava sem febre ainda e muitos ali estavam já com necessidade de uso do oxigênio. Nas muitas horas que aguardou, a oração foi a sua companheira. Recolheu-se e confiou em Deus. Pensava nos filhos sozinhos na sua casinha humilde e rogava à Nossa Senhora que cuidasse das suas crianças enquanto ela não pudesse voltar. A fé inabalável daquela mulher provocou no ambiente da Unidade cheia de gente e de dramas, uma atmosfera que se espalhou e alcançou muitos outros enfermos que lograram atingir o estágio vibracional que ela estabeleceu, auxiliada pelos Espíritos benfeitores cujas mentes ali estavam em ação. Gelsi, a atendente espiritual, vinculava-se à Carmem pelos liames das emanações do centro de forças coronário, auxiliando a distribuição das energias captadas com a alavanca da oração a todos os sistemas orgânicos.

A postura da enferma era de tocar o coração, pois não esboçava nenhuma reclamação ou inconformidade. Sorria sempre que algum profissional se aproximava para pedir um pouquinho mais de paciência aos enfermos, pois as equipes estavam reduzidas.

Oscar aproximou-se da enferma e confidenciou ao Irmão Mendes, sempre atento às muitas narrativas daquelas horas de transe doloroso para a humanidade.

- Nossa irmã está prestes a vencer uma etapa decisiva para a qual se preparou, abnegadamente, na espiritualidade antes de renascer. Esse momento tem para ela uma quitação de débito consciencial, assim como para a sua genitora e para os filhos biológicos de hoje.

- Ah! Mendes. Abençoada reencarnação e o esquecimento do passado que ela enseja. Olhando essa mulher pobre, enferma, sem quaisquer benefícios materiais, dependendo da caridade das almas boas, quem lembraria a criatura perversa que arregimentou uma quadrilha especializada no roubo de crianças, em um dos territórios da França pré-napoleônica, para transformá-las em escravos. Todo esse clã, que aí está tem envolvimento direto nesses nefandos crimes. A escravidão por si só é uma infração de lesa humanidade, mas a que foi propiciada pela “Dame Du Sucre”, mesmo no interregno em que a abolição foi promulgada nas possessões da França, e antes de ser reinstalada pelo “Corso Bonaparte”, foi odiosa. Muitas mães libertas tiveram seus filhos arrancados dos braços, alguns nem tinham dado os seus primeiros passos e foram segregados em lugares remotos da ilha, onde eram preparados como se fossem animais em ceva ou treinamento, a fim de serem vendidos como escravos destinados às plantações de açúcar.

Foram poucos anos, menos de uma década durou a sua ação à frente desse processo, mas tal desvio causou um débito espiritual de grande monta para este Espírito. Ela desencarnou, vitimada pela tuberculose, no final do século XVIII, no entanto, a estrutura nefasta que criou persistiu por décadas, burlando inclusive a lei francesa que aboliu definitivamente a escravidão na metade do século XIX.

Mas o progresso das almas é impositivo da Lei Divina. Ela renasceu e experimentou na própria maternidade a dor da privação que impôs a tantas mães. Teve uma reencarnação sofrida no Nordeste do Brasil, onde a fome e o barbarismo do cangaço levaram-lhe os filhos jovens, à força, deixando-lhe o coração e os olhos doridos de saudade. Retornando ao mundo espiritual, a ex-Dama do Sucre, buscou a oportunidade de se reconciliar com a consciência culpada. Pediu para renascer e recolher pelas vias da maternidade, as almas que conduziu ao erro nas paragens de Guadalupe.


Espírito Oscar José Pithan

Médium: Maria Elisabeth Barbieri


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