Histórias da Pandemia - A flor de todas as manhãs



A grande falange coordenada pelo Benfeitor Sepé Tiaraju, em nossos pampas, desdobra-se diuturnamente, no auxílio aos terrícolas a braços com a devastadora pandemia do Covid-19.

Carlos Barbosa, Honório Costa Rica, Antonia - a Siá Tonha, são os líderes de várias equipes de trabalho, cada um atuando nas frentes com as quais se identificam melhor e assim contribuem, efetivamente, para minorar o sofrimento alastrado no mundo.

De minha parte, fico dedicado às populações rurais mais distantes do atendimento nos centros urbanos, assim como aos indígenas e nações quilombolas. Também, aprimoro-me, junto com um repórter que me foi apresentado por Spinelli, a registrar alguns poucos fatos que espero auxiliem as reflexões de quantos se esmeram para compreender o propósito destas horas amargas sorvidas pela humanidade. Mendes tem sido uma companhia muito grata para compor o noticiário desta amostra singela dos processos que se desenvolvem no contexto da transição. Sua argúcia na avaliação dos quadros que se apresentam, tornam as apreciações profundas e belas.

Siá Tonha trabalha junto aos invisíveis – as almas flageladas que moram nas ruas – assistindo-os com seus atendentes devotados às misérias tão grandes e agora acentuadas pelo vírus impiedoso.

Carlos e Honório devotam-se aos doentes nos hospitais e aos profissionais da saúde, assistindo-os e renovando-lhes as forças a cada momento.

Todas as equipes, no entanto, servem sem solução de continuidade, nos lares tão sombreados pela dor.

O registro de hoje é de uma história de amor, daquelas amizades que põem o coração de joelhos e trata de um momento vivido por um dos pupilos de Siá Tonha.

Jordão é o seu nome e é morador de rua por mais de duas décadas. Sua história é daquelas que se perde nas memórias aturdidas pelo álcool, pelo abandono e pela solidão.

Quando perguntavam-lhe: - de onde vieste Jordão?

Ele desfocava o olhar como se estivesse vendo muito além da paisagem física e respondia apenas:

- Tenho nome de rio e rio vem de longe, nem se sabe muito bem “daondi”.

- Mesmo embriagado não perturbava quem quer que fosse. A vizinhança acostumara-se com o mendigo que fazia sua morada sob os arcos da ponte e que quando chovia arrastava os seus molambos para um cantinho da marquise do velho prédio da esquina.

Cuidava dos carros estacionados, quando estava sóbrio e cantava, com sua voz desafinada, o que o tornava simpático aos comerciantes, crianças e demais moradores do entorno:

- Sou um rio que veio de longe

Meu nome é o do Rio Jordão

Mas tenho um rio de lágrimas

Dentro do meu coração.

E rematava a cantiga com uma risada larga, que não se sabia bem se era para encobrir a dor que sentia ou se alguma lembrança feliz a música lhe trazia.

Uma alma, porém, era o anjo bom de Jordão.

Ofélia vivia só, no apartamento térreo de frente para o portão do pequeno prédio. Não tivera filhos e ficara viúva há muito anos. Quando via Jordão cantando solitário no canteiro central da grande avenida, o seu coração foi se enternecendo por aquele ser que mais parecia um farrapo humano, sem horizontes, sem família, sem teto.

Tinha um carinho especial por ele que vinha conversar com ela na grade do portão todas as manhãs , e lhe afiançava.

- Madrinha! Vim aqui antes de beber, porque depois não presto.

- Meu afilhado, respondia Ofélia, por que beber? Não achas que a vida seria melhor sem a bebida?

- Até acho, madrinha, mas não tenho coragem.

- Coragem, Jordão? Mas que tipo de coragem alguém precisa para cuidar da saúde.

- Ah! Madrinha, se paro de beber vou lembrar do que não quero. Deixa, assim, deixa assim... e esboçava um sorriso triste.

Ofélia entendia e silenciava.

Siá Tonha acompanhava Jordão, com seus atendentes, há algum tempo, trabalhando o sentimento de culpa que o consumia. Aos 16 anos Jordão matara o padrasto após longo tempo de sevícias, abusos, maus tratos sofridos por ele e pela mãe. Seu crime não foi descoberto, porque ele e a genitora levaram o cadáver para uma desova e a morte passou como mais um dentre tantos acertos de contas pelos traficantes. Mas ele nunca se perdoou, pois não era um assassino, mas se deixou levar pela crueza dos sofrimentos e humilhações experimentados.

Foi embora de casa para tentar esquecer, caiu no vício e nunca mais se recuperou. Não tinha 40 anos ainda, mas a sua aparência era envelhecida e tristonha.

Todas as manhãs, Ofélia preparava um café, o pão, atravessava a rua, descia alguns degraus da escada ao lado da ponte e pendurava a sacola no gancho improvisado. Ao levantar-se Jordão sorvia o café e sua alma atormentada balbuciava uma prece de gratidão por aquela senhora de coração tão nobre, que se importava com ele, uma criatura sem serventia, como costumava dizer e se sentir. Atravessava a avenida e sentava ao lado do portão para conversar um pouco com a “Madrinha”, deixando na grade, de onde ela recolhia, um galhinho de Boungainvillea colhida nos canteiros da rua.

A pandemia chegou e Ofélia ficou reclusa, não podia mais sair. Uma das vizinhas, mais jovem, se prontificou a fazer as compras para ela, mas a sua grande preocupação era: quem vai afinal alcançar o café para o Jordão? Quem vai cuidar dele? Será que ele vai se contaminar? E Ofélia passou a fazer o café e pendurar no trinco do seu portão. À distância, via o amigo e conversavam, ela da janela, ele no portão. Ele deixava o galhinho de Bougainvillea para ela; ela deixava máscaras, álcool em gel, e sempre o café. O inverno rigoroso por vezes não permitia mais do que um aceno por detrás do vidro.

As noites gélidas do sul faziam suas vítimas, embora os abrigos se ampliassem para acolher a população que crescia vertiginosamente, pois a crise pandêmica se associava à crise econômica, ao desemprego, à dissolução das famílias.

Siá Tonha e demais trabalhadores do Alto assistiam a todos, buscando aliviar um pouco os sofrimentos da fome, do frio e da própria doença que já se alastrava. Muitas almas recolheriam neste interregno as lições educadoras que a dor propicia aos que não crescem voluntariamente por outros caminhos.

Jordão era o velho conhecido de Antonia na sua reencarnação como a benzedeira, residira no fundo do campo da fazenda do Coronel. Hilário, o herói da Guerra do Paraguai, o homem que a estuprou e que foi durante a vida toda socorrido por ela nas crises obsessivas que o vitimaram.[1] Agora ele vivia ali na mendicância, nascera junto a duas de suas vítimas de outrora e que voltaram ao teatro terreno como seus pais. A genitora já o perdoara na erraticidade, aceitando voltar e retomar com ele as lutas redentoras na carne. O pai morreu quando ele era pequenino, em um desastre na construtora onde trabalhava e o consórcio da mãe com o padrasto foi uma provação duríssima. Ficou junto com a mãe, tudo suportando, até cometer o crime de assassinato do padrasto. A mãe não conseguindo evitar, deveria tê-lo persuadido a prestar contas à justiça, e resgatar desta forma muitos débitos vinculados ao sangrento conflito do passado. Mas optaram por esconder do mundo, sem lograr ocultar da consciência.

Jordão, tal como Hilário, trouxera mais uma vez uma faculdade mediúnica aflorada, que não sendo educada gerou desequilíbrios profundos que buscava sufocar com a ingestão de álcool.

Muitas vezes conversara com Ofélia que, inspirada por Antonia, oferecia alguns livros e orientava-o, dizendo que ele precisava entender isso, e que poderia fazê-lo no próprio albergue onde se recolhia quando estava sóbrio, nas noites mais frias.

- Agora não dá mais madrinha! Já entortei de vez!

- Sempre é tempo, Jordão! Tu és moço ainda.

- Sabes madrinha, quando pequeno a mãe me levava num Centro Espírita onde tinha aula e lanche no domingo. Eu gostava. Depois meu padrasto implicou, batia nela e aí a gente não foi mais.

- Mas eu gosto dos livros que a Senhora me empresta. Quando eu leio o Evangelho durmo melhor. Nem sinto vontade de beber. O problema é que o “desgraçado”, sempre aparece.

- Ora por ele meu filho! Se tu conseguires talvez ele não apareça mais.

- E o capeta lá gosta de oração, madrinha?

Jordão falava da visão atormentada do padrasto que lhe aparecia em estado de pungente sofrimento, com ódio, acusando-o pelo assassinato.

Antonia, que já resgatara o Coronel Hilário da perturbação extrema na desencarnação anterior, via progresso naquela vida onde todos identificavam fracasso. Jordão, apesar do crime cometido era uma criatura inofensiva para os semelhantes. Tinha compaixão dos que, como ele, só possuíam a rua e a comiseração alheia para viver. Quantas vezes dividia o café que Ofélia lhe oferecia todas as manhãs com algum outro mendigo abrigado no desvão da ponte.

Não ofendia quem quer que fosse, mesmo quando enxotado de algum lugar por quem não o conhecia, era incapaz de esboçar um gesto de agressividade. Solícito, fazia o que estava ao alcance apara ajudar quem precisasse.

Certa feita, em uma enxurrada de final de tarde, destas que formam rios em poucos minutos, uma pessoa se afogava dentro de um carro arrastado pelo rio. Ele jogou-se na água e conseguiu segurar a mulher até o resgate chegar.

O arrogante e cruel estancieiro, condecorado pelas façanhas da Guerra, desenvolvia, ainda que com muitas mesclas viciosas, ensaios de humildade e gentileza.

Assim é a trajetória humana, porque somos filhos da Perfeição que governa o Universo, a despeito da ganga que produzimos, carregamos as gemas preciosas do diamante do amanhã.

A tempestade acalmou naquela manhã fria de julho. Ofélia colocou o café no portão, mas Jordão não veio.

Aflita, chamou um dos vizinhos e pediu para que levassem a sacola até a beira da ponte.

Mas os dias foram passando e ele não apareceu.

O coração de Ofélia pressentiu que o amigo não voltaria mais.

Naquela noite ela sentiu uma fraqueza extrema e como sempre fazia, preparou-se para deitar, orou e deixou seus documentos à mão na cabeceira da cama, hábito de quem vive só e tem precaução.

Dormiu e sonhou. Via-se caminhando por uma alameda florida, cheia de Boungainvilleas, com um sol brilhante, uma brisa cariciosa e bancos convidativos para o descanso.

Ouviu uma voz conhecida que a chamava:

- Madrinha!

- Voltou-se e viu Jordão, caminhando na sua direção, amparado por uma venerável anciã, que ela sabia conhecer, mas não lembrava de onde. A dama auxiliou Jordão a sentar-se ao lado de Ofélia, inclinou-se com gentileza e um sorriso encantador no rosto e logo afastou-se rápido, como quem tem muito trabalho a fazer.

Pela manhã, os vizinhos estranharam a casa fechada e o pedido de sempre, que não veio: - Deixa o café na ponte? Ele pode voltar.

Ofélia cumprira a sua derradeira missão.

Deus tem caminhos para amparar todas as suas criaturas nas necessidades de evolução.

O último galhinho de Boungainvillea deixado no portão, caiu na terra do canteiro e cresceu e floresce até hoje, testemunhando o valor de uma amizade que o tempo não apagará.

Pelo Espírito Oscar Pithan.

Médium: Maria Elisabeth Barbieri


Referência: [1] Siá Tonha – Os Espíritos Contaram. Porto Alegre : Fergs Editora. 1ª edição. Porto Alegre. 2020

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