Siá Tonha - cap. X


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“XIV. A riqueza é um grande perigo. Todo homem que ama a riqueza não ama a si mesmo, nem ao que é seu; ama a uma coisa que lhe é ainda mais estranha do que o que lhe pertence. (Cap. XVI.)¹

Antonia estava cabisbaixa. Tudo o que relembrara a deixara envergonhada e com um aperto no coração.

Sepé percebeu a aflição da sua protegida e se assentou ao lado dela para ajudá-la a expungir aqueles sentimentos e organizar o pensamento.

- Antonia! Isto passou. São somente lembranças para que entendas que nós necessitamos muito de ter compaixão por aqueles que ocultam infortúnios sob posições sociais de destaque, atividades bem sucedidas, poder e dinheiro. Os andrajos morais são os mais difíceis de suportar e transformar. Eles ressecam os sentimentos, deformam o caráter e produzem dores intensas.

- Mas eu cometi crimes! Muitos! Cada cena que vivenciei aqui era como se muitas lanças estivessem a se cravarem profundamente na minha alma.

- As criaturas erram sim, Antônia, e muito. O erro não é uma imposição, mas uma construção da fragilidade e dos desejos que acalentamos.

A ambição desmedida foi o desafio que permeou a existência de Eugênia.

Nos seus últimos momentos, vendo o quanto era frágil tudo o que se constituíra no motivo principal da sua existência, Eugênia desencarnou em estado de intenso pavor e ódio.

Ergueu-se, em Espírito, em meio às chamas e investia contra tudo e todos, sem ser percebida, uma vez que já não possuía o corpo físico, do que não se dava por conta.

A povoação se reconstruía após a rebelião. Outro chefe assumiu o garimpo e a exploração continuava, apenas a riqueza trocara de mãos.

Eugênia descobrira que alguns daqueles homens e mulheres eram permeáveis ao que ele dizia e até ao que ela pensava. Assim começou a arquitetar o seu plano de vingança, insuflando ideias de rebelião contra o novo chefe do garimpo. Mas a misericórdia divina tem sempre novos e valiosos planos para as suas criaturas.

Por longo tempo vagueou pelos sítios do seu antigo domínio, perseguida por muitos dos adversários que fizera ao longo da vida, até que exausta, se deixou ficar em um local escuro, plasmado pela sua mente enferma e pelas demais que a assediavam de forma impiedosa.

Observava que estava pegajosa, com as vestes em farrapos, a aparência terrível, as unhas crescidas e os cabelos empastados, o que lhe davam um aspecto horripilante. Sentia-se injustiçada, pois considerava-se, realmente, dona daqueles domínios.

Quando Eugênia ficou naquele povoado, após o ataque dos portugueses, socorreu muitos feridos e graças a ela a mortandade não foi maior. Muitas noites insones, pensando feridas, amainando o ardor da febre, fazendo infusões de ervas junto com os índios que sobreviveram ali, ela passou aliviando dores e alimentando dezenas de criaturas, mesmo que depois as tivesse utilizado para alcançar os seus intentos de poder e dinheiro. O fato é que fizera amigos e plantara gratidão em alguns corações leais. Alguns expiraram em seus braços, sendo consolados e tratados dos ferimentos mais graves, sem possibilidade de recuperação. Estes a acompanharam de perto, após a morte, condoídos pela situação da sua benfeitora em hora tão difícil.

Aproveitando aqueles momentos de exaustão do Espírito Eugênia e aferindo os seus méritos, bem como a intercessão dos beneficiados por ela, os socorristas da espiritualidade se aproximaram daquele pântano sofrível onde ela se arrastava e fizeram-na recuperar das suas lembranças o dia do ataque ao lugarejo, um a um ela via os feridos que socorrera, em especial uma mulher índia.

Lembrou-se de uma índia grávida que agonizava perdendo muito sangue. Aproximando-se percebeu que o ventre da mulher se mexia, sinalizando que ali a vida ainda pulsava. Foi aos poucos auxiliando-a a expelir o feto, que nasceu ali mesmo, no mato, onde a mãe caíra atingida pelos tiros do invasor. Um menino forte, com traços que demonstravam a sua mestiçagem e que nem fruiu o colo materno, pois a indiazinha expirou quando ele nasceu.

Aquele menino que Eugênia chamou de Vitorino e criara como se fosse o seu verdadeiro filho, era a única criatura que dela recebia algum afago e a quem ela satisfazia todos os caprichos.

Mas Vitorino também desenvolvera o vírus destruidor da ambição, tal como sua mãe postiça, e certo dia furtou jóias, algumas pepitas de ouro e fugiu do vilarejo. Eugênia não permitiu que Quintino o perseguisse. Dali em diante sem a presença do seu afeto ficou mais perversa e intratável.

A mãe de Vitorino, no entanto, tinha imensa gratidão por Eugênia. Espírito simples permanecia, após a desencarnação, naqueles sítios acompanhando o crescimento do filho até que foi resgatada para tratamento em uma colônia espiritual. Refeita e fortalecida, muitas vezes obteve permissão para visitar Vitorino durante o sono e tentou dissuadi-lo, sem êxito, de trair aquela a quem devia a própria vida.

Percebeu o sofrimento de Eugênia com a traição do rapaz e acompanhava-lhe as lágrimas vertidas em silêncio, na calada da noite, sem que ninguém visse.

Agora estava ali para acolher a pobre mulher para quiçá fazê-la iniciar uma nova vida como ela fizera com o seu filho há mais de vinte anos.

Eugênia não reconheceu a sua benfeitora, mas sentiu uma lassidão e se deixou recolher daquele antro vicioso em que se demorava.

Essas lembranças Sepé não permitiu que Antonia acessasse, mas convidou-a a refletir sobre o sofrimento de Eugênia e a ilusão de felicidade com base na riqueza material, sem que a prosperidade reverta em bem-estar próprio e do semelhante.

- Por isso essas roupas e essa aparência me fazem tanto mal. Eu quero voltar ao meu rancho, cuidar dos meus andarilhos, por Deus, meu irmão! Antonia soluçava e falava súplice ao benfeitor amigo.

- Antonia, a riqueza é um cabedal de bênçãos quando aquele que a recebe por prova terrena tem a consciência de que ela deve dar frutos de justiça, de amor e caridade. Não se pode ver esse patrimônio, emprestado pelo Alto aos homens, como um estorvo, porque dele depende o progresso material do Orbe, o aprimoramento dos talentos, da inteligência e a transformação do mundo físico para tornar-se mais apto à evolução do Espírito imortal, prosseguia Sepé.

- Não conheci nenhum rico bondoso, meu irmão. O Coronel Hilário era um tirano.

- Antonia, seja justa! Dona Mariana era uma alma boa, o Coronel afinal a deixou ficar em suas terras a vida toda. Para um homem rude, um ser atrasado espiritualmente, isso é um grande avanço.

Siá Tonha meneou a cabeça e esboçou um sorriso tímido, em sinal de assentimento à análise de Sepé.

Mas Antonia não conseguia atinar como ela se transformara de uma cortesã, uma mulher fútil e ambiciosa, em alguém que não dava a menor importância para estas questões de luxo e riqueza.

- Surpreendendo o seu pensamento Sepé ajuntou:

- A lei do progresso se faz, Antonia. Por vezes o sofrimento e a dor funcionam como arado para que novas virtudes cresçam e transformem os Espíritos em sua árdua ascensão.

A mãe de Vitorino renasceu e acolheu você, Antonia, como filha. Viveram em uma tribo, no que restou da grei guarani.

REFERÊNCIAS:

  1. O Evangelho segundo o Espiritismo > Introdução > Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão > XIV

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