Siá Tonha cap. XXXIV




“Os privilégios de raças têm sua origem na abstração que os homens geralmente fazem do princípio espiritual, para considerar apenas o ser material exterior. Da força ou da fraqueza constitucional de uns, de uma diferença de cor em outros, do nascimento na opulência ou na miséria, da filiação consanguínea nobre ou plebeia, concluíram por uma superioridade ou uma inferioridade natural. Foi sobre este dado que estabeleceram suas leis sociais e os privilégios de raças. [...] Mas se se tomar seu ponto de vista do ser espiritual, do ser essencial e progressivo, numa palavra, do Espírito, preexistente e sobrevivente a tudo cujo corpo não passa de um invólucro temporário, variando, como a roupa, de forma e de cor; se, além disso, do estudo dos seres espirituais ressalta a prova de que esses seres são de natureza e de origem idênticas, que seu destino é o mesmo, que todos partem do mesmo ponto e tendem para o mesmo objetivo; que a vida corporal não passa de um incidente, uma das fases da vida do Espírito, necessária ao seu adiantamento intelectual e moral; que em vista desse avanço o Espírito pode sucessivamente revestir envoltórios diversos, nascer em posições diferentes, chega-se à consequência capital da igualdade de natureza e, a partir daí, à igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição dos privilégios de raças. (Revista Espírita, 1867, p. 231.)”[1]


Corina olhava para a lápide do túmulo em meio à cortina de lágrimas que caíam calmamente, tal como aquelas chuvas de verão abrandando a secura do solo crestado pela inclemência do sol.


Alírio, sentado ao seu lado, timidamente segurou a mão e ficaram ali ambos olhando para a lápide recém colocada.


Ambos tinham os mesmos pensamentos: Como seria a aparência física de Luana, hoje, 35 anos passados? Mas também o que importava isto? Como teria sido? Nada mais tinha importância.


Eles conseguiram juntar as peças daquela história que para Corina era a sua própria história, ocultada pelos avós e pela comunidade do Quilombo por tanto tempo. Para Alírio respondia em parte um abandono que o supliciava e amargurava todos os dias da sua existência.


As coincidências de nome, datas, a fisionomia de Corina, a sua origem deram a eles a certeza de que as suas histórias tinham a mesma origem.


Corina nunca tinha visto a foto da mãe. Conheceu-a pelas que Alírio guardara e que embora muitas vezes tivesse sido tentado a destruir não tivera coragem. O bilhete, este sim, era a mesma letra que tinha em alguns cartões de felicitações pelo aniversário, pelo dia das mães e outras datas, que a avó lhe entregara, quando estava prestes a morrer.


- Sabe, Alírio, eu nunca imaginei que a minha vida fosse, para mim, tão desconhecida. Sempre senti um vazio imenso. Embora tenha recebido muito afeto, carinho de meu avô, até da minha avô, que a sua maneira cuidou muito de mim, mas eu tinha uma saudade grande demais, de alguém ou algo que nunca tive.


- Eu imagino o que seja crescer sem a presença dos pais, pois eu conheci os meus e convivi com eles até a minha juventude e sinto uma dor que nunca passou, por tê-los perdido tão cedo.


Corina sorriu com melancolia e encostou a cabeça no ombro do pai.


Sim, Alírio era seu pai.


Naquele dia, no hospital, quando descobrira que sua mãe tinha o mesmo nome da mulher que o médico achava tão parecida com ela a ponto de ter uma síncope, a forma direta de Corina para abordar os assuntos foi alinhando uma pergunta após outra e constando que a sua vida tinha elos mais fortes do que poderia supor com a do paciente que ali estava diante dela.


Corina não tinha o nome do pai na sua certidão, como era comum à época para os filhos que não eram gerados na constância do casamento. Disseram-lhe que o pai morrera, antes de casar com sua mãe, em uma das muitas inundações que ocorriam na região e que o corpo nunca fora encontrado. Quando insistia no assunto recolhia o mutismo das pessoas e dos próprios avós. A mãe morrera no parto. E era só o que sabia.


No entanto a data de nascimento de Corina deu-se seis meses após a data em que Luana sumiu da vida de Alírio e tudo parecia muito estranho.


A moça tinha um cacoete. Quando estava com alguma impaciência ou nervosismo, levantava seguidamente o cabelo segurando-o próximo da nuca e foi em um desses movimentos que virando-se de costas para Alírio deixou à mostra um sinal na parte posterior do pescoço que tirou o fôlego do médico, já em estado de estupefação com tudo o que o assunto pressagiava: era uma mancha em forma de um trevo de quatros folhas – ele tinha um igual, na coxa direita e sua mãe a tinha nas costas, próxima à região escapular.


- Corina, chegue aqui!


- O que foi?


- O sinal. O trevo.


Ela olhou para ele sem entender.


- Sim, eu nasci com ele.


- Eu sei, redarguiu o médico. Eu também.


Em um impulso ela inclinou-se para olhar atrás do pescoço do paciente.


Não, não é aí. Foi erguendo, não sem certa hesitação, o lençol e mostrou-a na coxa.


- Alírio, será que é o que eu estou pensando? É muita coincidência.


Ela saiu do hospital quase correndo, deixando-o cheio de interrogações.


Voltou no dia seguinte, acompanhada de uma mulher. Era uma senhora negra, com um ar assustado. Via-se que não estava ali pela sua vontade e olhava desconfiada para Alírio e receosa para Corina.


- Fale Dona Aurélia, conte a ele tudo o que a Senhora me disse. Por favor!


Aurélia tinha os cabelos escuros e os olhos em um tom esverdeados. Devia andar por volta dos 60 anos talvez, pois como as pessoas de sua raça, tanto a pele quanto os cabelos custam muito a anotar sinal de envelhecimento. Ela começou a falar com uma voz pausada, as vezes um pouco entrecortada pela emoção. Falou de Luana e da decisão da família quando souberam que ela estava grávida de um homem branco. Era uma comunidade racista, muito radical. Os seus integrantes eram expulsos e não poderiam mais retornar se tivessem qualquer relacionamento com pessoas de outra raça e, especialmente os brancos. Havia um pacto entre eles, baseado no ódio que devotavam aos brancos pelos maus tratos infligidos, no passado, aos seus antecessores. As histórias da escravidão eram mantidas vivas entre os quilombolas daquela comunidade, e passadas entre as gerações, na tradição oral, para que não fossem esquecidas e a chama do ódio aos brancos se mantivesse acesa. Não eram violentos, nem tinham quaisquer ações de desforço contra quem quer que fosse, mas não permitiam que eles adentrassem a comunidade. Nem todas as comunidades procedem assim, mas naquela essa era a regra. Realmente, Corina era filha de Alírio.


Quando Luana voltou e anunciou a gravidez, assim como a disposição de se casar com Alírio, a comunidade preparou o ato de expulsão. Ela não aguentou. Nunca mais ver o pai, a mãe, os irmãos. Era perder a sua identidade e por mais amasse o seu companheiro, não suportaria isso. Pediu perdão aos líderes do quilombo e renunciou a sua felicidade.


Dona Aurélia disse que eram amigas, tinham quase a mesma idade, e ela fora confidente de Luana. A mãe de Corina tinha esperanças de um dia poder mudar a situação dentro do quilombo, imaginava voltar aos estudos e a rever Alírio e apresentar-lhe a filha. Pensava reunir forças para, quem sabe, um dia, afastar-se dos seus e retomar outra vida. Mas ela não teve tempo.


Dimensionara, segunda a amiga, que falava agora, já em pranto, mal a extensão do seu sentimento pelo pai de Corina. A tristeza foi se tornando intensa e o seu estado físico foi se complicando, foi ficando debilitada. Corina nasceu prematura e a mãe teve eclampsia e morreu sem nem ter segurado a filha no colo. Aurélia lembrava do dia em que Alírio esteve no quilombo e eles esconderam dele a presença de Luana, com o consentimento dela.


Agora, ali, diante daquele túmulo, que também fora indicado por Aurélia, pois nunca havia sido revelada a sua localização à Corina, pai e filha procuravam resgatar em nome daquela vida marcada pela incompreensão, e por um preconceito que tem feito tantas vítimas, o início de uma nova caminhada, regando os seus corações com a água límpida do perdão que é o único caminho para reconciliar vítimas e verdugos.


Dois Espíritos, Luana e seu pai, que tudo acompanhavam, sob a tutoria de Antonia, vertiam copiosas lágrimas de gratidão, percebendo o quanto a ausência do perdão e o cultivo dos ressentimentos plantam dores e sofrimentos nos corações dos nossos amores. A vida fizera o que nenhum deles tivera a lucidez de promover, ou seja, deixar que o sentimento do amor lançasse o véu abençoado sobre os erros e os crimes nefandos do passado.


A mãe de Luana ainda acalentava a mesma dureza e o mesmo ódio que somente as eras de aprendizado em novas sendas haveriam de transformar.


Alírio, com as muitas leituras feitas nos livros espíritas e as conversas com Anacleto, sabia que a vida não se extinguia no túmulo e nem iniciava no berço. Era pacífica, para ele, a questão da imortalidade da alma, mas fazia bem ao seu coração, saber que doravante teria um lugar, onde podia contemplar a foto da sua amada e lembrar dos poucos mas intensos momentos de felicidade que viveram. Não tinha mágoa. Sim, ela poderia ter confiado mais nele, mas ele também sabia que as razões do coração não são racionais e por isso não a culpava. Preferia crer, como Anacleto dizia, que os reencontros um dia acontecerão e que os que se amam serão felizes juntos.


Corina terminou de ajeitar um ramo florido junto à lápide que ela e o pai colocaram na sepultura simples, com o nome e a frase assinalando o preito de saudades da filha e do esposo espiritual.


Siá Tonha, amparando Luana, que emocionada assistira à homenagem singela da filha e do grande amor da sua vida, acompanharam os dois afetos que se afastavam pela pequena alameda do cemitério.


FIM


Referência: [1] Ribeiro, Guillon. O Evangelho segundo o Espiritismo. FEB - Federação Espírita Brasileira. Edição do Kindle.

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