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Siá Tonha cap. XXVII - Arrependimento

Atualizado: Jun 25



“Tendo sempre o Espírito seu livre-arbítrio, seu melhoramento é por vezes lento, e sua obstinação no mal muito tenaz. Ele pode persistir anos e séculos; mas chega sempre um momento em que sua teimosia em enfrentar a justiça de Deus se dobra diante do sofrimento, e em que, apesar de sua soberba, reconhece o poder superior que o domina. Assim que se manifestam nele as primeiras luzes do arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança." O Céu e o Inferno - Primeira Parte - Doutrina - Capítulo VII - As penas futuras segundo o Espiritismo - Código penal da vida futura.

Passaram-se três dias dos acontecimentos que envolveram Anacleto na sua chegada ao casarão.

Foram noites insones e nos poucos momentos em que dormia, acordava sobressaltado com os pesadelos em que se via perseguido por uma turba de pessoas que queriam sufocá-lo. Sentia muitas mãos pressionando o seu pescoço e quando acordava estava banhado em suor.

Esses eventos aconteciam-lhe desde a infância, acentuando-se nos tempos em que perambulara pelas ruas e haviam se atenuado, um pouco, depois que começou as atividades realizadas com o Dr. Alírio atendendo aos necessitados como ele. Os adversários do passado continuavam à espreita, aguardando os menores deslizes, os desequilíbrios se intensificarem para voltar às cobranças, aproveitando-se do sentimento de culpa que produz a nefasta sintonia, colocando o Espírito calceta à mercê dos ataques dos inimigos, que também possuem caráter educativo, pois à medida que a leitura e a reflexão sobre o Evangelho foi se tornando um hábito, a compreensão foi se dilatando e os pontos de conexão com os sentimentos de ódio, mágoas, ressentimentos foram diminuindo. Porém, a visão do desafeto sendo preso acendeu a fagulha do rancor e era com essa ameaça de incêndio íntimo que Anacleto lutava.

Em vários momentos pensou em ir embora voltar e esquecer tudo aquilo. Afinal fazia tanto tempo, os filhos nem lembravam mais dele, já havia causado tanto sofrimento a sua família, que não queria surgir em um momento tão delicado para criar mais confusão e angústia para todos. Porém algo dentro dele impedia que consumasse essa ideia. Sentia uma aflição maior ainda, quando pensava em abandonar a ideia que o trouxera até ali. Fechou os olhos doloridos e começou a balbuciar uma prece que decorara, porque como nunca fora afeito a orar, não conseguia se expressar espontaneamente. O médico amigo lhe disse que o importante era sentir aquilo que ele dizia na oração, não importava que ela fosse lida, e ele leu tantas vezes que gravou na memória.



“Meu Deus, és soberanamente justo; todo sofrimento, neste mundo, há, pois, de ter a sua causa e a sua utilidade. Aceito a aflição que acabo de experimentar, como expiação de minhas faltas passadas e como prova para o futuro.

Bons Espíritos que me protegeis, dai-me forças para suportá-la sem lamentos. Fazei que ela me seja um aviso salutar; que me acresça a experiência; que abata em mim o orgulho, a ambição, a tola vaidade e o egoísmo, e que contribua assim para o meu adiantamento. ”[1]



Com a prece foi sentindo uma aragem a refrescar o ardor das suas aflições, como se um peso tivesse sido retirado do seu coração. Quando abriram os olhos ela estava parada na soleira da porta contemplando-o, com um sorriso suave no rosto.

Viriata trouxera roupas limpas e alimentos, pois adivinhara as necessidades prementes que ele tinha. Ele fazia apenas uma refeição diária, com os parcos trocados que tinha e com os frutos das laranjeiras que cresciam no pátio da casinha complementava a ração escassa.

A antiga ama foi colocando-o a par da situação no casarão. Antonio Pedro fora levado para a capital, mesmo. Os advogados da família estavam tentando libertá-lo, mas parecia sério o caso. Ela ouvira Julinho falando com o cunhado, esposo de Maria Lúcia, que encontraram panfletos e material que falavam mal do governo, dizia Táta, no escritório dele na empresa.

Maria Lúcia estava desesperada, afinal era o pai que ela tivera. Julinho queria ir para Porto Alegre, mas foi desaconselhado, poderia ser tido a conta de cúmplice. Eram dias difíceis em que as liberdades individuais não valiam muito.

Mas ninguém acreditava que Antonio Pedro estivesse envolvido com os trabalhadores grevistas. Não fazia o seu estilo.

- O que eu vou lhe dizer agora, seu Anacleto, morre com nós os dois: Mas eu acho que quem anda metido com esse povo desordeiro é o Julinho. Um dos que se bandeou para o Uruguai não saía de lá de casa. O patrão não gostava, mas também não contrariava, fazia tudo o que o filho queria. Eu não sei se o Seu Antonio Pedro não está pagando por estripulias do Julinho.

- Será Táta?

- Ele está muito espiado. Desde que tudo aconteceu que está sem sossego, nervoso. Maria Lúcia se encerrou com ele por horas no escritório, mas não sei o que falaram.

- Você acha que eu devo ir lá? Acho tão difícil esse momento para todos. Será que eu não vou criar mais confusão?

- O senhor tem direito. É o pai deles.

- Não, não tenho, não. Mas também não é isto que me traz aqui, reivindicar direitos, só queria pedir perdão e voltar para a vida que escolhi viver a tanto tempo.

Conversaram por um par de horas e Anacleto ficou sabendo que o seu desafeto havia progredido muito, além da pecuária ele também se firmara, através do sogro, no ramo dos frigoríficos. Maria Lúcia não tinha filhos. Engravidara por duas vezes e não conseguira chegar a termo nas gestações. Julinho casara-se há pouco tempo e também não tinha filhos. A moça, que gentilmente o abordou no solar, solicitando deixasse o endereço, era sua nora Cecília.

Contou-lhe que a família passava longas temporadas no Rio de Janeiro, onde adquiriram uma mansão, que Viriata conhecia só pelas fotografias.

Ao se despedirem, Anacleto estava mais animado a voltar ao casarão da família e se avistar com os filhos. Talvez fosse melhor mesmo, sem a presença de Antonio Pedro.

Naquela noite dormira melhor, pois parecia que a decisão tomada o aliviara um pouco.

Após o desjejum dirigiu-se, resoluto, para o encontro mais importante de sua vida, era o que pensava.



Referência: [1] Kardec, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Coletânea de preces espíritas. Cap. 28. Item 30

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