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Paternidade - Um dever - Siá Tonha cap. XXI


“Mas há os que se ocupam mais em endireitar as árvores de seu pomar e as fazer produzir bons frutos do que endireitar o caráter de seu filho. Se esse fracassa por erro deles, carregarão a pena e os sofrimentos do filho na vida futura, que recairão sobre eles, porque não fizeram o que deles dependia para seu adiantamento no caminho do bem.” Questão 582 - Livro dos Espíritos.


Os dois amigos tomavam café em silêncio. Anacleto impressionava pelo abatimento. Alírio percebia que a alma que ali estava à sua frente se debatia em conflitos e sofrimentos que a muito custo conseguia conter. Por isso decidiu esperar que ele desse início ao assunto, se é que isso iria acontecer. Já se sentia gratificado pelo retorno do amigo. Agora era cuidar dele, da melhor maneira possível, e aguardar.


Estava imerso nestes pensamentos, quando o pobre homem desabou em soluços, agitando-se convulsivamente, como se um vulcão de emoções irrompesse das profundezas da alma.


- Meu amigo, estou aqui para te ouvir, afinal já me escutaste tantas vezes.


- Doutor, eu já pensei em mim, de muitas maneiras: um infeliz, um injustiçado, um miserável, um fracassado, um louco, mas confesso que não me pacifico com nenhuma destas situações. Acho que tudo isto são máscaras que eu criei para encobrir a minha culpa, culpa imensa doutor!


- É, eu sei bem como a culpa nos faz sofrer. Ela é uma perseguidora tenaz, precisa ser enfrentada com coragem para que não nos tornemos suas presas.


Antonia foi enlaçando magneticamente o homem que lutava para fazer aflorar à consciência desperta os seus dramas sufocados por tanto tempo. Foi inoculando-lhe fluidos no centro de forças cardíaco, para que ele obtivesse um pouco de equilíbrio para a catarse necessária.


Aos poucos, Anacleto foi contendo o pranto que se transformou em lágrimas silenciosas a lhe banharem o rosto castigado pelas intempéries da vida.


- Eu nunca pensei que fosse encontrar Lucélia nessa situação! Desde aquele dia, em que entrei na nossa casa, de madrugada, bêbado e vi aquele desgraçado saindo do quarto dela eu alimentei um ódio tão surdo, tão cego, que para mim ela estava morta. Dali em diante, fui caindo, caindo, perdendo tudo até me tornar isso que o senhor encontrou na rua.


- Mas tu nunca mais a procuraste, meu amigo? As pessoas cometem erros. Conviver com essa doença – o alcoolismo - não é fácil para os familiares e afetos do alcoólatra. E depois ainda há muito tabu e preconceito em torno dela.


- É, doutor, eu fazia um grande esforço para me manter sóbrio alguns dias, mas quando eu sentia aquela fissura, não tinha forças. Era como se um imã me arrastasse para dentro da garrafa. Depois, eu tinha dinheiro e os meus amigos bebiam junto e diziam que isso era normal. Que depois de um sono tudo passava. E eu fui acreditando, que quando eu quisesse, eu pararia mesmo.


- Todo o doente pensa assim, meu amigo, até chegar o momento em que precisa pedir ajuda.


- Você tinha recursos, Anacleto?


- Sim, sou único filho de um fazendeiro, dono de muitas terras. Meu pai criava cavalos e gado de raça, participando de feiras no mundo inteiro. Mas nunca gostei disto. Somente me preocupei em gastar e esbanjar dinheiro, Nem estudar eu quis. Minha mãe me mimou muito e dizia a meu pai que com o dinheiro que nós tínhamos eu não precisava aprender nada, era só saber mandar os outros fazer as coisas. Pobre da minha mãe! Tão ingênua, não percebia que estava ajudando na minha derrocada.


Alírio estava boquiaberto. A história de Anacleto era muito mais intensa do que ele imaginava.


- Casei cedo e fui morar em um palacete na capital, à custa da fortuna do meu pai. Minha esposa, Lucélia, era uma ex-prostituta por quem me encantei e que a contragosto da minha família desposei mesmo assim. Sem juízo e sem freios achei que o casamento seria uma festa constante, mas ela engravidou logo e passou a me fazer cobranças, que para mim à época, eram descabidas. Cuidar crianças, chegar cedo à noite em casa, ter responsabilidades. Imagina! Vou virar um destes homens cabresteado por mulher. Comecei a ficar cada vez mais tempo longe de casa e a beber mais e mais. Meus pais tentavam me chamar à razão, até minha mãe que finalmente dera-se conta do caminho ruinoso que eu tomara. Casara para ter liberdade e viver na orgia com uma mulher que vivia disto. Mas na verdade ela tinha outras intenções, que eu não soube entender e nem aproveitar. Quantas vezes lhe lancei ao rosto: - Querendo posar de madame! Eu sei de onde vens! Sem dar por conta do quanto humilhava a criatura que devia proteger e que jurei amar e respeitar.


Alírio fez uma pausa e continuou:


- Mas isto doutor, eu só me dei conta depois da tragédia.


- Tragédia?


- Sim.


- Foram quinze anos de casamento, em meio a brigas, ausências, reconciliações breves, em algumas delas, três, ela engravidara. Isso me deixava muito contrariado e provocava novo afastamento. Minha esposa suportava tudo, apesar das brigas e cobranças o que me levavam a julgá-la interesseira. Queria o meu dinheiro - pensava sempre – por isso não ia embora.


Alírio tinha o coração opresso, ouvindo o amigo, segurava com dificuldade as lágrimas.


- No dia em que o meu primogênito completaria 15 anos fui à fazenda para trazer meus pais. Ele foi junto. Estava feliz, o Neto. Tinha o mesmo nome do avô. Toda vez que ia a fazenda eu me divertia com uma das empregadas da casa e desta vez não foi diferente. Bebi bastante e na hora de sair, meu pai percebeu o meu estado e falou-me:


- “Anacleto, melhor a gente dormir aqui e ir amanhã! ”


- O que é isso pai, estou habituado. Esse carro anda até sozinho.


A minha insistência acabou vencendo a resistência do avô que queria ir para a festa do seu neto.


- Nossa viagem se interrompeu no caminho. Perdi o controle do carro e ali ficaram meu filho e meus pais.


Anacleto recomeçou o choro convulsivo, apertando o peito com força.


- Que dor! Que dor!


- Anacleto! Já faz tempo, não há o que você possa mudar naqueles fatos! Por alguma razão você sobreviveu e está aqui, e reencontrou sua es.. ex-esposa.


- Os dias que vieram foram o inferno na Terra, doutor. Lembro que no velório todos me olhavam, os olhares eram incriminadores, todos sabiam que eu era um alcoólatra, e que deveria estar bêbado dirigindo o carro.¹ A justiça não tinha como me condenar, mas eu sabia, doutor. Eu tinha matado os meus pais e o meu filho. Milagrosamente, apenas fraturei a clavícula e tive alguns cortes profundos nas pernas e esses picotes no rosto que trago até hoje. Foram dois anos em que eu busquei a morte, bebendo, criando confusões nos bares, na rua, até em casa, covarde, muitas vezes peguei uma arma e provoquei Lucélia para que ela acabasse com a minha vida sem propósito. Nesse espaço de tempo um dos meus primos apareceu para cuidar dos bens do espólio do meu pai. Afinal eu era o único filho e ainda tinha dois filhos menores: o Julinho e a Maria Lúcia. Eu não havia providenciado inventário, nem tomara ciência dos negócios. O capataz era quem fazia os pagamentos e tocava a fazenda. Lucélia, mesmo com a dor da perda do filho, se envolvia mais do que eu nas questões da administração. As reservas que meu pai deixara foram sendo consumidas e era necessário tomar providências. A chegada de Antonio Pedro foi providencial.


O olhar do interlocutor vagueava perdido nas lembranças.


- Na verdade, eu nunca senti o que era ser pai, mesmo. A morte do Neto foi mais uma questão de culpa e desconforto com a sensação de que me culpavam, mas não era o desespero de um pai que vê morrer o filho. A dor que eu lia nos olhos de Lucélia eu estava longe de sentir. Hoje quando penso nisso me dói muito mais do que à época dos fatos.


Ali estava um homem confessando a sua incapacidade de amar. Alírio lutava com a sua vontade de julgar. Ele que se esforçava tanto para desenvolver esse sentimento em si, estaria diante de um monstro? De uma pessoa sem sentimentos, sem compaixão. Mas silenciou e lembrou que a vida é bem mais do que aquilo que nós vemos e que não julgar é para os seres falíveis como nós um exercício que traz bem-estar e serenidade porquanto muitas vezes seremos nós que necessitaremos da compaixão alheia. Nas muitas vezes que confidenciou suas mágoas ao amigo ele nunca o julgara, nem fora capaz e qualquer gesto incriminador.


Mas também, pensou, nem podia!


Siá Tonha foi se aproximando para acalmar agora aquele coração, a fim de que não desamparasse Anacleto. Afinal aquela alma fizera progresso, não o esperado, mas fizera. O degolador de outrora constituíra família, não cometera nenhum crime de sangue, ao contrário, fugira para não cometê-lo. Por vezes uma alma leva muitas vidas para subtrair-se às nefandas escolhas que fez.

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