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Carta sobre as paixões e a vontade



Coração amigo, creio que tens razão ao me propor uma questão em torno da vontade como recurso de domínio do Espírito sobre as paixões. Ante tua fraternal provocação, pus-me a pensar e procurei, naturalmente, recursos para isso nas obras de Allan Kardec a fim de observarmos a compreensão da Filosofia Espírita sobre o tema das paixões, novamente, e sua relação com a vontade.

Ao debruçar-se sobre a temática das paixões, em O Livro dos Espíritos[1], o nobre Allan Kardec obteve dos Espíritos Superiores a significação desta categoria filosófica que compreende um rol de emoções ou sentimentos que nos conectam com as necessidades e apetites do corpo que, em princípio, nos impulsionam à co-criação nas diversas instâncias da vida.

Com base na explanação dos Espíritos, na fonte referida acima, podemos chegar a algumas conclusões:

1º) A paixão, em seu princípio, se traduz num sentimento ou necessidade natural e está relacionada à dupla finalidade providencial da manutenção da existência física e do progresso do Espírito;

2º) A paixão precisa ser governada para ser colocada a serviço de seu princípio, ou seja, incentivar através da busca do atendimento das necessidades corpóreas o progresso do Espírito;

3ª) O domínio das paixões sobre o Espírito o conduz aos excessos, constituindo-se em desvio de sua finalidade e retardo em seu progresso espiritual;

4º) A má paixão ou a paixão, propriamente dita, está no excesso e, nele o Espírito aproxima-se mais da natureza corporal do que espiritual;

5º) O sentimento elevado, por sua vez, revela o predomínio do Espírito sobre a vida corpórea e progresso espiritual em processo adequado à finalidade da reencarnação.

Observe, amizade, que as paixões são um instrumento a serviço da vida e de nossa evolução espiritual, devendo estar sob o nosso controle, jamais o inverso.

Agora, algo que para mim fica evidente que, a par desse saber, fica uma interrogação: onde podemos haurir forças para suportar os reclamos da matéria e não permitir que o atendimento de nossas paixões caminhem para o abuso, ao ponto de nos escravizar?

Fato é que a vontade, essa potência da alma, como um dia descreveu o sábio Léon Denis, deve ser posta em ação porque o seu poder, quando orientado por uma inteligência que quer crescer em virtude, é capaz de mudanças inimagináveis na natureza moral do indivíduo. Disse o filósofo: “Querer é poder! O poder da vontade é ilimitado. O homem, consciente consciente de si mesmo, de seus recursos latentes, sente crescerem suas forças na razão dos esforços.(...)”[2]

Para que as paixões estejam ao nosso favor, a vontade precisa ser direcionada pelo pensamento lúcido e educada pela razão de forma conjugada ao sentimento elevado, nobre, inspirado pelo desejo da aquisição de ciência, justiça e de amor - nossas metas evolutivas, segundo o Espírito de Paulo, o apóstolo[3].

Mas, muitos de nós reconhecemo-nos com uma vontade tíbia ante os condicionamentos inferiores, descobrindo-nos quase joguetes destes, como então superar esse quadro? Bom, os Espíritos colocam o livre-arbítrio acima dos condicionamentos, afirmando que “(...) Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.”[4]

Assim, ao que nos parece, o nosso papel é resistir aos arrastamentos ou condicionamentos das más paixões, buscando o equilíbrio no atendimento às necessidades materiais da vida, alinhando sempre as mesmas aos objetivos da reencarnação.

Fico por aqui, estenderei a nossa correspondência em torno do tema das paixões mais uma vez, mas, se permitires e tiveres interesse, gostaria de acrescer à reflexão algumas considerações sobre a contribuição da prece no abrandamento das paixões.

Até a próxima.

Vinícius Lima Lousada[5]


Referências: [1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 908. (Fonte: https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/234/parte-terceira-das-leis-morais/capitulo-xii-da-perfeicao-moral/as-paixoes) [2] Denis, Léon. O problema do ser, do destino e da dor (Locais do Kindle 6581-6582). FEB. Edição do Kindle. [3] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, questão 1009. (Fonte: https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/3415/parte-quarta-das-esperancas-e-consolacoes/capitulo-ii-das-penas-e-gozos-futuros/duracao-das-penas-futuras/1009) [4] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 845. (Fonte: https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/3225/parte-terceira-das-leis-morais/capitulo-x-9-lei-de-liberdade/livre-arbitrio/845) [5] Educador, escritor e palestrante espírita, coordenador do Setor de Formação de Lideranças Espíritas da FERGS.

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