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A crise atual e a necessidade de lideranças

Vinícius Lima Lousada[1]


O mestre Allan Kardec, ao estudar o processo de regeneração da humanidade terrena sob as diretrizes da Lei de Progresso, ressalta em A Gênese que:

“Mas uma mudança tão radical como a que se está elaborando não pode realizar-se sem comoções. Há, inevitavelmente, luta de ideias. Desse conflito forçosamente se originarão passageiras perturbações, até que o terreno se ache aplanado e restabelecido o equilíbrio. É, pois, da luta das ideias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais foram consequência do estado de formação da Terra. Hoje, não são mais as entranhas do planeta que se agitam: são as da humanidade.[2]

Evidencia-se da citação acima que Kardec refere à luta de ideias em desenvolvimento por razão da Lei de Progresso, que incita a humanidade a modificar seus paradigmas com vista ao paulatino alinhamento do modo de ver a vida com a Lei Divina. Neste circuito de transição paradigmática, de reajustes continuados de visão de mundo, está o conflito, o choque entre ideias do passado, mergulhadas no materialismo, no egoísmo ou na fé cega, para com ideias progressivamente coerentes com a Lei Natural, mediante a espiritualização dos indivíduos.


Os flagelos destruidores são realmente fomentadores de crise, mas devem ser compreendidos como fenômenos naturais, inerentes às circunstâncias físicas de nosso Planeta. Ensinam os Espíritos: “Na primeira linha desses flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocadas a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais às produções da terra.”[3]


Mas falemos sobre a crise que esses flagelos causam. Em bom dicionário etimológico[4] encontramos esse verbete assim descrito: “(...) alteração, desequilíbrio repentino’ ‘estado de dúvida e incerteza’ ‘tensão, conflito’ (...)”. Crise é uma mudança que gera quebras de paradigmas e, por isso, leva à incerteza, à dúvida, coloca em cheque o nosso modo de viver e pensar a vida, mas, por outro lado, à luz dos saberes espíritas, toda a crise é uma oportunidade de crescimento.


Desse contexto, emerge a necessidade de pensarmos que tipo de liderança exercemos onde a vida nos colocou.


O historiador israelense Yuval Harari, em um instigante ensaio sobre as implicações da pandemia, adverte que estamos em um momento em que há carência de lideranças, seja no relacionamento entre as nações, seja na relação entre os indivíduos ou grupos sociais diversos. Afirma ele que

Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar nos especialistas, os cidadãos precisam confiar nos poderes públicos e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis solaparam deliberadamente a confiança na ciência, nas instituições e na cooperação internacional. Como resultado, enfrentamos a crise atual sem líderes que possam inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.[5]

O renomado pesquisador está falando de um fenômeno global que adentrou o cenário religioso no mundo, também, em uma circunstância em que são necessárias: a informação científica comprometida com o bem comum; a publicização honesta da mesma; a popularização desta informação através de campanhas pela vida; a cooperação individual, institucional e internacional; e a solidariedade entre indivíduos e povos. Em paralelo à cooperação em construção, não faltaram explicações frágeis sobre o COVID-19, apelando para suposta fúria ou castigos divinos, elucubrações conspiratórias sectárias e busca de manutenção de interesses pessoais, na religião e na esfera política.


Qual o papel da liderança num momento desafiante como este? De ser uma liderança educadora, que reconheça as oportunidades que a presença de um vírus avassalador como este, que já fez desencarnar mais de 200.000 pessoas no globo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)[6], traz de aprendizados para a autotransformação, efetivação de mudanças culturais e para o progresso espiritual das coletividades. Aliás, lembram-nos os autores da obra O Líder Espírita (FERGS) que o líder é um educador.


Na hora grave em que vivemos são indispensáveis lideranças exercidas nesta perspectiva, despertando o que há de melhor em seus liderados, a serviço do bem comum, pautadas na tríade que nos recoloca no endereço de Deus, como aponta a sabedoria de O Livro dos Espíritos: justiça, amor e ciência[7].



[1] Coordenador do Setor de Formação de Lideranças Espíritas - FERGS. [2] Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guilion Ribeiro (Locais do Kindle 13594-13598). Edição do Kindle. Cap. Cap. XVIII [3] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, questão 741. (Fonte: https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/3096/parte-terceira-das-leis-morais/capitulo-vi-5-lei-de-destruicao/flagelos-destruidores/741) [4] Antônio Geraldo da Cunha. Dicionário etimológico da língua portuguesa (Página 190). Edição do Kindle. [5] Harari, Yuval Noah. Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade (Breve Companhia) (Locais do Kindle 103-107). Companhia das Letras. Edição do Kindle. [6] Vide matéria da UOL a respeito no link: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/04/25/mortos-por-covid-19-passam-de-200000-oms-alerta-sobre-passaportes-de-imunidade.htm. [7] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. questão 1009. (fonte: https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/3415/parte-quarta-das-esperancas-e-consolacoes/capitulo-ii-das-penas-e-gozos-futuros/duracao-das-penas-futuras/1009)

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