Siá Tonha - cap. VI


Começou pela parte VI? Leia os capítulos em sequencia:

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Antonia sentia-se, a cada período que transcorria na colônia, mais jovem e percebia que os seus traços fisionômicos se alteravam substancialmente.

Notava que o rosto, as mãos, todo o seu corpo, adquiriam uma aparência bem cuidada, embora mantivesse a tez cor de âmbar escuro que caracterizava os mestiços, não tinha mais o tom encardido, nem a textura rugosa e crestada de sol que compunha a aparência de Siá Tonha.

As lembranças começavam a voltar lentamente, assim como as cenas de lugares e pessoas que por vezes a surpreendiam, pois sítios tão diferentes daqueles de onde viera, mas que logo adquiriam tons de familiaridade para ela.

Via-se caminhando em um grande palácio de estilo gótico, com suas torres imponentes e a arquitetura carregada de detalhes.

Pouco a pouco seus trajes também foram se modificando. Via-se com vestidos de sedas farfalhantes, ricamente bordados com fios de outro e pedrarias raras, o que a incomodava, sobremaneira. Os seus cuidadores muito amorosos e que lhe dispensavam grande atenção pareciam nem dar por si da grande transformação que nela se operava, afeitos que estavam a estes processos que ocorriam na colônia. Tratavam-na como sempre o fizeram, desde os primeiros dias de sua chegada aquele pouso espiritual.

Imersa nestas cismas Antonia se deixou acariciar pela brisa tépida que percorria o ambiente. Alojada em um recanto florido do jardim, observava a sua atual aparência e à medida que se deparava com os novos detalhes fisionômicos e a aparência das suas roupas, uma aflição grande demais foi tomando conta do seu ser, uma vontade incontida de chorar oprimia-lhe o peito.

Ergue-se e chofre e pensou: - Vou interpelar o irmão... Não chegou a concluir o pensamento e aquele vulto magnífico assomou a sua frente.

Antonia ficou contemplando aquele ser do qual emanava uma luminosidade intensa, mas que, sobretudo, impressionava pelo ar de nobreza e pela generosidade que transmitia. Buscou nos refolhos das suas lembranças onde e quando tivera aquela visão.

O índio de estatura imponente, olhar profundo estava ali contemplando-a como um pai amoroso observa a filha. Ela recordou-se. Nas crises mais acerbas do Coronel Hilário ele sempre montava guarda junto ao seu rancho, muitos dias antes. Ela o percebia ao longe, pois nunca se aproximara dela, como ali naquele momento. Aprendera que quando ele se fazia notar, logo depois os homens do coronel traziam o patrão amarrado em cordas para ela atender.

Sepé ergueu a destra e pousou-a na mão de Antonia, espalhando suave luz, que se transformou em um pouco de serenidade para aquela alma que se afligia pelo reencontro com o passado.

Ao influxo daquela energia vigorosa, Antonia dobrou-se sobre si e caiu de joelhos, segurando a mão do benfeitor amigo entre as suas, beijando-a repetidas vezes.

0 cacique imantando-a com sua força mental ergueu-a suavemente fazendo-a sentar novamente no banco do jardim onde estivera momentos antes. Antonia soluçava e as lágrimas rolando pela sua face iam pouco a pouco acalmando-a e diminuindo a opressão que sentia.

-Eu conheço o Senhor!

- Sim, “Siá Tonha” – ele sorriu – você auxiliou-me muito, nesse tempo inteiro em que perseverou no serviço de Jesus, naqueles ermos do sul da Pátria do Evangelho.

Antonia arregalou os olhos, parecia que há tanto tempo ninguém a chamava assim – Siá Tonha - e ela ajudando aquele ser de luz?

Sepé adivinhou-lhe os pensamentos e respondeu:

- Minha irmã Antonia, a única luz verdadeira é Jesus. O que percebes aqui neste nosso encontro são os reflexos da presença dele, que cuida de seus servos imperfeitos em seus esforços de redenção.

- Antonia, essa indumentária te causa aflição?

Ela sacudiu a cabeça, afirmativamente. Olhando as dobras do rico vestido, as jóias a enfeitar-lhe o colo, sentia-se como se estivesse aprisionada em uma armadura.

- Tranquiliza-te, e agora observa as imagens que faremos aflorar do teu passado para que compreendas a grandeza deste momento.

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